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quarta-feira, 6 de novembro de 2019

Oficina de Arqueologia Experimental do Paleolítico
















Oficina de Arqueologia Experimental do Paleolítico

Esta oficina, preparada com muito tempo de antecedência com o arqueólogo dr. Daniel Ribeiro, técnico superior do Museu Amadeo de Souza-Cardoso, e finalmente aprovada/desbloqueada no passado mês de Outubro pelo Senhor Presidente da Câmara de Amarante, aconteceu ontem e, não tenho qualquer dúvida, provocou o entusiasmo geral da miudagem do 7.º ano de escolaridade, que, depois de uma brevíssima exposição teórica sobre como se formam os vários estratos e como se podem apresentar os vestígios da ação humana nesses mesmo estratos, e depois de fornecidas as diretrizes sobre os trabalhos a realizar, meteu as mãos na massa e começou, efetivamente a escavar.
Pareciam uns Indiana Jones! E foi vê-los entusiasmados e de olhos a brilhar sempre que se deparavam com os achados que lhes tocaram na rifa. E os achados foram mais do que muitos já que incluíram vestígios de uma oficina de talhe com bastantes restos do fabrico de instrumentos em sílex, incluíram vestígios de uma fogueira, cheia de cinzas, cujo perímetro estava delimitado por seixos do rio, e, à volta, restos de animais por certo devorados - ossos, presas de javali... - e instrumentos líticos variados como bifaces, raspadores... e até um concheiro foi encontrado e escavado ali mesmo, no Pavilhão Central do Agrupamento de Escolas de Amarante.
Claro que os restos da fogueira não foram levantados mas, tudo o resto, depois de sumariamente desenhado, fotografado e registado, foi limpo, ensacado e identificado e será posteriormente desenhado nas aulas de Educação Visual experimentando, os alunos, pela primeira vez, a técnica do desenho arqueológico.
O caminho faz-se caminhando e esta atividade enquadra-se, na perfeição, no espírito que presidiu à conceção do Projeto História em Movimento, no já longínquo ano de 2010/2011, apenas um ano após o meu regresso ao agora Agrupamento de Escolas de Amarante.

Resta-me agradecer aos alunos que ontem tiveram uma postura particularmente irrepreensível e contribuíram, assim, para o êxito desta atividade e, como não podia deixar de ser, ao arqueólogo dr. Daniel Ribeiro pela sua impecável colaboração, sempre entusiasmada, diga-se de passagem!, nestas minhas andanças históricas!
Ainda um agradecimento muito especial à assistente técnica dos Serviços Educativos do Museu Amadeo de Souza-Cardoso, dr.ª Rosa Pinto, por toda a ajuda prestada nos preparativos das caixas surpreendentes que, ontem, fizeram as delícias dos meus arqueólogos por uma manhã.

Foi sempre meu entendimento que "santos da casa têm de fazer milagres". Ontem, tenho a certeza, fizemos um.

sexta-feira, 4 de dezembro de 2015

Oficina de Arqueologia Experimental do Paleolítico

Oficina de Arqueologia Experimental do Paleolítico
Fotografias de Anabela Matias de Magalhães

Oficina de Arqueologia Experimental do Paleolítico

A oficina, inscrita no Plano Anual de Actividades do Agrupamento de Escolas de Amarante, e dirigida a todas as turmas do 7º ano de escolaridade que frequentam o referido Agrupamento, decorreu no passado dia 23 e 24 de Novembro e foi, como sempre, um êxito.
Assisti, como não podia deixar de ser, à Oficina de Arqueologia Experimental do Paleolítico dirigida aos meus alunos de 7º ano e, todos juntos, embarcámos numa maravilhosa viagem, conduzidos pelo nosso cicerone, o arqueólogo dr. Jorge Sampaio, do Parque Arqueológico do Côa, que, para além de especialista nestas andanças, é também um velho amigo deste Agrupamento, meu amigo em particular.
A viagem levou-nos à fase final do Paleolítico Superior para acompanharmos a luta pela sobrevivência de um pequeno grupo de caçadores-recoletores. E a recriação desta história desenrolou-se à volta da fundamental arte da caça e da realização das armas necessárias para esta perigosa atividade, nomeadamente de uma azagaia que exigia o talhamento do quartzito e do quartzo, os tipos de rocha de longe mais utilizados pelas populações ancestrais que um dia habitaram a região do Côa, mas de propriedades não tão espetaculares como o magnífico sílex, de dureza, durabilidade e eficácia incomparavelmente superiores e que também foi utilizado, muito embora só marginalmente pelas populações do Côa, já que apenas cerca de 1% dos instrumentos líticos aí encontrados são em sílex; exigia também o afeiçoamento de um pau comprido e fino que servisse de suporte à ponta de lança e ainda a feitura de corda a partir de crinas de cavalos, de tendões ou de peles de animais, de raízes, de cascas de árvore, de tripas de animais e que, por incrível que pareça, davam cordas super resistentes testadas com toda a força pelos alunos; e passámos à feitura da cola a partir de uma mistura de resina e hematite triturada que, sob acção do fogo, misturaram-se e deram origem a uma supercola muito ecológica e reversível, para além de muito eficaz. Por fim, a azagáia necessitava apenas dos estabilizadores, penas de pássaros, pois então!, que permitiam à arma planar em linha reta, eficazmente em direção ao alvo.
Sempre guiados pela mão do nosso magnífico cicerone, o arqueólogo dr. Jorge Sampaio, foi tempo de passarmos ao fabrico do fogo através dos dois métodos usados em tempos paleolíticos - por choque ou percussão de duas pedras e ainda por fricção, usando dois pedaços de madeira de diferentes durezas, a mais macia a que fica fixa e a mais dura a que gira rapidamente sobre a outra - e de falarmos do uso do fogo em fogueiras, nalguns casos enormes, de dois ou três metros de diâmetro, que serviam de grelhadores gigantes. Entretanto os alunos olhavam espantados para a água a ferver à conta de pedras muito quentes deitadas dentro da água guardada numa "panela" de pele... sim, era possível fazer um chá paleolítico... quem diria!
E o dr Jorge Sampaio abordou a arte - como se conseguiam os pigmentos de cor na Natureza para a fabrico das tintas, como se faziam os pincéis, como se pintavam, através de um aerógrafo primitivo, as mãos em negativo nas paredes das grutas, cavernas, abrigos... e nada melhor do que exemplificar... agora, no século XXI, sobre uma folha branca de papel e foi assim que todos os alunos tiveram direito à sua mão pintada em negativo que ficará arquivada no Portefólio de História
Tal como já escrevi num outro post sobre a mesma temática - Dever cumprido! A História quer-se coisa entusiasmante e esta aula, tenho a certeza!, foi entusiasmante.

Obrigada, dr. Jorge Sampaio! Pela ajuda inestimável, pelo entusiasmo, pelo contributo ímpar e pela clareza da aula, tão do agrado de todos os presentes.

Nota - Peço desculpa pelo atraso com que saiu esta postagem... mas a verdade é que o trabalho tem sido descomunal.

domingo, 19 de janeiro de 2014

9ºC - Duas Reflexões Sobre a "Oficina do Paleolítico"

Oficinas de Arqueologia Experimental do Paleolítico - 9ºC
Fotografias de Anabela Matias de Magalhães
 
9ºC - Duas Reflexões Sobre a "Oficina do Paleolítico"
  
    No dia 13 de janeiro de 2014, o Arqueólogo Dr. Jorge Sampaio deslocou-se de Foz Côa à nossa escola, em Amarante, para termos contacto e experienciar algumas das atividades utilizadas no Paleolítico Superior para garantir a sobrevivência de quem viveu aquela época.
    Em Foz Côa existem milhares de gravuras, sendo Património da Humanidade, bem como escavações arqueológicas, o que significa que o Dr. Jorge Sampaio vinha apetrechado de informações e instrumentos variados (réplicas).
    Os instrumentos utilizados naquela época eram feitos de osso, madeira e/ou pedra. Através da percussão direta (uma pedra a bater na outra) obtinham-se lascas que poderiam ser usadas como utensílios de corte ou serra.
    Já as hastes de veado eram utilizadas para fazer o denticulado das serras de sílex ou para as pontas de lança, juntamente com a madeira endurecida pelo calor e uma cola feita de resina e de hematite em pó (esta também era utilizada para produzir tinta). Esta cola era reversível e poderia ser moldada se reaquecida. As lanças ou azagaias também continham penas, para proporcionar um movimento aerodinâmico, e cordas para as prender poderiam ser obtidas a partir de tendões, pele de animais, tripas de animais ou raízes.
    Também vimos como o propulsor, primeira máquina inventada pelo Homem, funciona. Este era curto e com ele as azagaias poderiam atingir uma distância e velocidade duas ou três vezes superior (até 300 Km/h) a uma azagaia lançada com a mão. 
    Para cozinhar ou aquecer água aqueciam-se pedras; as brasas poderiam ser feitas com madeira e havia uma lamparina feita com tutano e um pavio de ervas secas que iluminava as cavernas. Curiosamente, usavam o cogumelo casca de cavalo (fungo pavio) para conservar as brasas.
    Com todo o respeito, o Dr. Jorge Sampaio parecia um autêntico homem das cavernas e tão cedo não me vou esquecer desta oficina, principalmente por ter tido o privilégio de ver o meu cabelo ser cortado com uma lasca de sílex.
    Gostaria de dar os parabéns ao Dr. Jorge Sampaio e agradecer a oportunidade à Professora Anabela. Foi uma experiência muito interessante que não me importaria que se repetisse.

I. M.

    No passado dia 13 de janeiro, a nossa turma assistiu a uma Oficina do Paleolítico Experimental, a cargo do arqueólogo Dr. Jorge Sampaio. O Dr. Jorge Sampaio, na fase inicial da sua intervenção, falou-nos sobre o seu trabalho, no Museu de Arqueologia de Foz Côa, onde estudam milhares de gravuras, instrumentos variados e a vida e os vestígios de acampamentos do Homem do Paleolítico Superior.
    Explicou que a pedra, os ossos (como a haste de veado é usada para fazer serras) e a madeira eram os materiais mais usados nesta época e que o sílex, pedra bastante dura e de gumes afiados, era muito apreciada, nomeadamente na confeção da pontas de lança mas que, em Foz Côa, apenas existe em 1% enquanto o quartzito em 99%.
    Mostrou-nos e explicitou o processo de fabrico de uma lança, desde a sua fase inicial quando a madeira é colocada ao calor para se endireitar e ficar mais resistente; a corda é usada para prender a ponta da lança e os materiais usados no seu fabrico são a pele, os intestinos e tendões de animais, e ainda raízes; a cola, para colar a ponta em pedra ou osso à madeira, era feita com resina de pinheiro e hematite; as penas, na parte superior da lança, têm um efeito aerodinâmico.
    O animal fornece materiais para se vestirem, das suas peles fazem-se cabanas. As pedras ajudavam a grelhar e a conservar a carne quando eram aquecidas. A pedra, após sofrer um processo de aquecimento, podia ser utilizada para desidratar a carne, o que a conservava, mas também servia para aquecer água para tomarem banho ou mesmo para fazerem sopa. Para aquecer a pedra, o fogo podia ser fabricado por fricção ou percussão. Por fricção é quando um pau muito seco e mais duro se fricciona noutro de dureza inferior. Por percussão, é quando se bate com uma pedra noutra, libertando faíscas suficientes para formar fogo.
    Após esta palestra, agradável e interessante, compreendemos melhor o Homem da Pré-História pois tivemos o privilégio de ter uma demonstração ao vivo e de sentir que viajamos no passado.
     Temos de agradecer ao Dr. Jorge Sampaio que trabalha no maior museu ao ar livre. Eu diverti-me imenso e achei bastante interessante. Obrigada professora Anabela por esta oportunidade.

B. S.

Nota - Obrigada pelo teu testemunho, I. M.! Também não me importaria de ver estas oficinas mais uma vez...
Obrigada pelo teu testemunho, B. S.!

As vossas palavras são encorajadoras...ao trabalho!

Anabela Magalhães

7ºA - Oficinas de Arqueologia Experimental do Paleolítico - Agradecimentos e Registo Vídeo

7ºA - Oficinas de Arqueologia Experimental do Paleolítico - Agradecimentos e Registo Vídeo

As Oficinas de Arqueologia Experimental do Paleolítico realizaram-se durante todo o passado dia 13, uma segunda-feira, portanto. Acontece que eu só tenho aulas com o meu 7ºA às terças-feiras e vai daí, sabendo que estes alunos têm tarde livre às segundas, lancei-lhes o repto:
-"Dão-me dada" a aula de segunda-feira? - E eles deram, sem pestanejar, sem hesitações e no meio de grande entusiasmo!
Por isso, agradeço-lhes a disponibilidade com que aturam esta Professora de História, sempre a magicar estratégias para tornar as suas aulas mais interessantes.

Agradeço ainda à Professora Ana Osório pelo registo vídeo realizado e pela partilha do mesmo no canal da nossa Escola, no Youtube.

Espero que gostem desta produção caseira.



Anabela Magalhães

7ºA - Reflexão sobre "Oficina do Paleolítico"

Oficinas de Arqueologia Experimental do Paleolítico
Fotografias de Anabela Matias de Magalhães
 
7ºA - Reflexão sobre "Oficina do Paleolítico"

            "No dia 13 janeiro, das 14h10 às 15h05, na sala 4.6, realizou-se a “Oficina do Paleolítico”, a cargo do arqueólogo Jorge Sampaio, do Parque Arqueológico de Foz Côa, no âmbito da disciplina de História.
                No início, o arqueólogo começou por nos apresentar algumas das pedras de Foz Côa, referindo que o quartzito é uma das pedras que existe em maior quantidade naquela zona, cerca de 99%, e que é pouco resistente, sendo usado em ferramentas e lareiras. De seguida, apresentou o sílex, informando que existe em pouca quantidade e que é uma pedra muito importante por ser dura e resistente. Por isso, era usada no Paleolítico para fazer, por exemplo, serras. De seguida, informou-nos como se faziam os dentes das serras a partir das hastes de veado. A cola utilizada era constituída por resina e pedra - hematite - e era de secagem rápida.
                Depois, explicou-nos que a corda usada nesse tempo era feita de tendão, tronco, tripa e, por vezes, pele. Por sua vez, o propulsor podia ser feito de osso ou madeira. A vantagem deste instrumento para o homem que caçava era que este não se tinha de aproximar tanto do animal.
                Ficamos a saber outras curiosidades, por exemplo, o auroque foi o antepassado do boi e era uma animal muito perigoso; cada fogueira podia ter três metros de diâmetro. Demonstrou ainda como se fazia o fogo, sedo que, se for feito manualmente, o fogo por fricção pode demorar cerca de 10 a 15 minutos.
                Por fim, imitamos as pinturas das mãos do Paleolítico, simulando o processo de pintura numa folha de papel A3.
                Gostei muito da oficina, principalmente quando o arqueólogo nos demonstrava a informação transmitida. Achei uma atividade interessante que veio complementar a matéria dada na disciplina. Entendo apenas que era preciso mais tempo para podermos aproveitar melhor a atividade."
 
M. M. 
 
Nota - Subscrevo esta última opinião da M. M. Mais tempo para História, precisa-se!
 
Anabela Magalhães

Oficinas de Arqueologia Experimental do Paleolítico - 13 de Janeiro de 2014

Oficinas de Arqueologia Experimental do Paleolítico - 13 de Janeiro de 2014

Oficinas de Arqueologia Experimental do Paleolítico
Fotografias de Anabela Matias de Magalhães

Oficinas de Arqueologia Experimental do Paleolítico

As Oficinas de Arqueologia Experimental do Paleolítico, sete ao todo, decorreram hoje na maior das normalidades e com os alunos a trocarem de turno sem alarido nem confusões.
A história, contada pelo arqueólogo Dr. Jorge Sampaio, desenrolou-se sempre à volta de um pequeno grupo de caçadores-recolectores, nós próprios, que, depois de transportado numa espécie de máquina do tempo mental para o Paleolítico Superior, se viu forçado a sobreviver da forma usual à época, estranha para gente do século XX/XXI.
Naquele dia estávamos com fome e sem reservas alimentares, nada de carne conservada no gelo, nada de carne fumada, nada de carne seca, peixe também não, precisávamos mesmo de caçar um auroque ou um veado, de qualquer modo um animal de grande porte para repormos as reservas alimentares do pequeno grupo mas para isso precisávamos de construir uma azagaia para usar com o propulsor, aquela máquina maravilhosa equivalente, em importância, a um tablet dos dias de hoje.
Começamos por ver as propriedades do quartzito, esmagadoramente utilizado, juntamente com o quartzo, na indústria lítica do Vale do Côa, porque aí existentes, mas de pior comportamento em termos de dureza, durabilidade e eficácia por comparação ao sílex, só marginalmente usado pelas populações que habitaram o Vale, correspondendo apenas a cerca de 1% de toda a indústria lítica aí descoberta já que era "importado" de longe, da Estremadura portuguesa ou dos vales do Douro e Tejo internacionais, em território correspondente à actual Espanha.
O talhamento do sílex foi demonstrado pelo Dr. Jorge Sampaio que, de seguida, fez um denticulado numa lasca transformando-a numa autêntica serra excelente para serrar madeira ou osso, o que foi experimentado e demonstrado. Serrado o galho de madeira comprido, endireitado e endurecido sob a acção do calor e, com a ponta de osso ou sílex já feitas, foi hora de pensar na corda e na cola a utilizar para unir a madeira ao osso ou à pedra depois de colocadas as pontas numa fenda feita numa das pontas da futura azagaia.
Ok, tínhamos de utilizar materiais existentes na natureza para fazermos as cordas que podiam ser realizadas a partir de crinas de cavalos, de tendões de animais, de raízes, de cascas de árvore, de tripas de animais e que, depois de enroladas ou entrançadas deram cordas super resistentes como foi testado pelos alunos que não as conseguiram quebrar apesar de toda a força feita para o efeito. Depois tivemos de pensar na cola, feita a partir de uma mistura de resina, podia ser mesmo resina de pinheiro, a que era necessário misturar hematite triturada num almofariz da época, feito em osso de vaca. Sob acção do lume, os dois componentes misturaram-se e foram aplicados sobre uma peça já encabada com um surpreendente tempo de secagem de uns 10/15 segundos. Portanto, cola, corda, mais cola e a azagaia está pronta a levar os estabilizadores na ponta oposta, feitos de penas de pássaros para que a azagaia, ao ser lançada, plane em linha recta e vá direitinha ao seu alvo.
Mas, entretanto, como era possível fazer o fogo nesta época tão recuada? Pois através de dois métodos - por choque ou percussão de duas pedras - e outro - por fricção - que usa dois pedaços de madeira de diferentes durezas, a mais macia a que fica fixa e a mais dura a que gira rapidamente sobre a outra.
Entretanto já fomos à caça, tivemos êxito na caçada, chegámos ao acampamento onde já está preparada uma enorme fogueira de dois a três metros de diâmetro com o interior todo forrado com pedra lisas que até podem ser calhaus rolados apanhados no rio que corre próximo do acampamento, descarnamos o animal e toca de grelhar a carne fazendo uma espécie de bife nas pedras, pedras que são previamente aquecidas e onde se colocam os nacos de carne que rapidamente cozinham.
Entretanto também podemos usar estas pedras aquecidas a altas temperaturas para fazer ferver a água e assim cozer os alimentos. A "panela" que contém a água fria tem de ser em pele e ao deitarmos as pedras muito quentes lá dentro a água ferve com uma rapidez incrível! Pura magia!
Bom, de barriguinha cheia vamos fazer arte. No caso umas mãos pintadas em negativo. Podemos construir um aerógrafo primitivo e para isso basta-nos um recipiente de tinta, dois ossos finos e ocos de diferentes tamanhos colocados em ângulo quase recto, um deles, o mais comprido, mergulhado no copo com tinta resultante da hematite moída e misturada com água ou gordura de animal e o outro, mais curto, por onde se sopra fazendo espalhar a tinta sobre a mão pousada sobre uma folha de papel, no Paleolítico sobre uma parede de uma gruta, caverna ou abrigo.
 
E pronto, o dia foi cheio de experiências mágicas que todos recordaremos, por certo, para sempre. É claro que a contribuição do arqueólogo Dr. Jorge Sampaio foi inestimável e fundamental para captar o interesse até dos mais problemáticos. E por isso quero deixar-lhe aqui os meus mais sinceros agradecimentos pela energia, entusiasmo e paixão colocados nas suas palavras e nos seus actos, tão esclarecedores para todos nós.
Penso que não errarei se afirmar que as Oficinas de Arqueologia Experimental do Paleolítico foram do agrado de todos os alunos e de todos os professores que a elas assistiram!
Dever cumprido. A História quer-se coisa entusiasmante!

E a propósito, deixo-vos com o funcionamento de um aerógrafo "paleolítico" que encontrei numa breve pesquisa no tubes.... sim, está tudo no tubes, nós sabemos...
 


Post originalmente feito aqui.

terça-feira, 2 de abril de 2013

O Barroco - A Aula do Professor Miguel Moreira

Igreja de S. Domingos - S. Gonçalo - Amarante
Fotografia de Anabela Matias de Magalhães
 
O Barroco - A Aula do Professor Miguel Moreira

É com imensa alegria que hoje publico a Aula do Professor Miguel Moreira subordinada ao tema "O Barroco". Sem mais.

O BARROCO
      Toda a expressão artística é reflexo das dinâmicas sociais e um produto mental e cultural da época histórica em que surge. O Barroco não é exceção. Iniciada nos finais do século XVI e desenvolvida ao longo dos séculos XVII e XVIII, a arte barroca surge num ambiente dominado pela consolidação das grandes monarquias absolutas, pelo movimento da contrarreforma da Igreja Católica e num mundo abalado por todo o tipo de guerras, epidemias e convulsões sociais. Neste contexto, o barroco é aproveitado tanto pelos monarcas absolutistas para valorizarem a sua imagem e ostentarem o seu poder, mandando construir imponentes e luxuosas cortes, como pela Igreja Católica empenhada em seduzir os crentes que, sobretudo nos países nórdicos, aderiam em massa ao protestantismo. A arte é, desta forma, instrumentalizada e manipulada, por papas e reis, com o objetivo de persuadir, deslumbrar e seduzir.
      Nascido em Itália, nos finais do século XVI, a partir de formas maneiristas, o Barroco rapidamente se espalhou a todos os países da Europa do sul, atingindo, também, as colónias espanholas e portuguesas da América Latina e do sul da Ásia.
      Roma, sede do Papado, representava, também, o triunfo do catolicismo face à Reforma Protestante. Com esse objetivo, o Papa Sisto V (1585-1590) criou uma cidade-espetáculo na qual a linguagem barroca respondia plenamente aos desígnios do poder papal e das orientações tridentinas. Com intervenções de arquitetos como Bernini e Barromini, as novas construções, distantes da ordem, do equilíbrio e da regularidade da composição renascentista, experimentavam jogos de massas e de espaços, formas onduladas e dinâmicas e uma decoração exuberante e cenográfica, com o único propósito de deslumbrar o observador e despertar-lhe fortes impactos emocionais.
      Apesar das diferentes interpretações que se verificaram nos diferentes países e regiões, determinadas por diferentes contextos políticos, religiosos e culturais, este estilo apresentou algumas características comuns. Assim, os arquitetos barrocos, entendendo o edifício de forma integrada, como se fosse uma grande escultura, única e indivisível, davam preferência às linhas curvas, em formas côncavas ou convexas, explorando os efeitos contrastantes de luz e de sombra, na procura do movimento e do infinito. Os portais, normalmente divididos por andares, com as suas colunas torsas ou pseudo-salomónicas, os contrastes entre cheios e vazios, os entablamentos interrompidos e irregulares, as imagens inseridas nos seus nichos, os frontões de linhas curvas e uma decoração exuberante, eram pensados e construídos no quadro de uma vivência e de uma sensibilidade vocacionadas para a teatralidade, capazes de atrair pelo olhar, de persuadir pela beleza, de emocionar e de envolver os fiéis.
      Mas foi nos interiores que o barroco mais impressionou. O Barroco, numa espécie de “horror pelo vazio”, cobriu os interiores de frescos, de telas, de mármores policromados, de esculturas, de retábulos e de talha dourada, contribuindo desta forma para a profusão da cor e para o prazer dos sentidos.
      Ora, foi precisamente a talha dourada a mais genuína e característica arte do Barroco em Portugal. Muito prolixa e exuberante, a talha revestiu altares, paredes, tetos, órgãos, púlpitos, cadeirais, balaustradas, arcos, frisos, cornijas, janelas e sanefas. A talha “forrou de ouro” as igrejas. E, “Se a Igreja é a imagem do Céu sobre a Terra, como não ornamenta-la com o que há de mais precioso?” pergunta René Huyghe, em “Sentido e Destino da Arte”.
      A talha dourada é uma técnica escultórica em que a madeira é esculpida e, posteriormente, revestida por uma fina película de ouro. A sua execução implicava a participação de vários artistas: o arquiteto, que fazia o desenho, o entalhador, que esculpia a madeira, o ensamblador, que preparava a madeira para receber o ouro e, por fim, o dourador, que aplicava o ouro.
      Depois de concluídas, as obras de talha dourada, sobretudo os retábulos, codificam uma linguagem simbólica e alegórica que ultrapassa a sua função meramente decorativa ou cenográfica e assumem um papel ativo na interação com o observador. Nesta pedagogia formal e cenográfica, o brilho e a cor do ouro desempenhavam um papel determinante, não só pelo seu impacto visual, mas especialmente pelo seu simbolismo, pois imprimiam essência divina ao espaço, numa espécie de prefiguração da esfera celestial. Um apelo mais aos meios de perceção sensorial, imaginativa e afetiva dos fiéis, do que às suas faculdades intelectuais, procurando, assim, através da eloquência das formas e das cores, envolver e persuadir sensorial e emocionalmente os fiéis, sobretudo as massas populares.
      Na evolução da talha portuguesa, podemos distinguir três fases:
      O Estilo Nacional, com retábulos compostos de uma tribuna com o seu trono piramidal, ladeado por colunas pseudo-salomónicas de fuste espiralado que sustentam arcos concêntricos. Como motivos ornamentais, quase de vulto perfeito, apresentam-se folhas de videira e cachos de uvas (alusão à Eucaristia), meninos e querubins, pequenos pássaros (fénix, símbolo da ressurreição) e folhas de acanto. Dos lados, a composição é rematada por pilastras, mísulas e outros elementos que enfatizam a estrutura retabular.
      O Estilo Joanino (a talha atinge o seu apogeu na época de D. João V), com retábulos mais elevados, baldaquinos que substituem os arcos concêntricos e colunas salomónicas. O trono mantém o lugar cimeiro, agora tratado com mais aparato. A decoração inclui novos elementos: grinaldas, palmas, conchas, medalhões, festões, volutas com cabeças de querubins e figuras angélicas ou alegóricas. Para o esquema teatral muito contribuem as imagens inseridas nos seus nichos, os atlantes na base dos retábulos, cortinados nos remates puxados por anjos, sanefas que coroam o arco cruzeiro.
      O Estilo Rocaille ou Rococó, termo de origem francesa que designava um tipo de ornamentação inspirada nas fontes e grutas artificiais dos jardins, baseada na imitação de rochas, conchas, flores e outros elementos naturais. Na talha, a sua linguagem decorativa é feita por formas flamejantes, folhas estilizadas, curvas e contracurvas, enlaçamentos de volutas, ornatos complicados e de grande requinte, inseridos num fundo com cores esbatidas a lembrar influências orientais.
      Mas o Barroco não foi apenas um estilo arquitetónico. Ele influenciou transversalmente todas as formas de expressão artística e cultural da sua época: a escultura, a pintura, o mobiliário, a literatura, a música, a dança…
      A escultura, associada à arquitetura ou à pintura, colocada isoladamente em praças e jardins, invadiu tudo, encontrando-se por todo o lado. Caracteriza-se pelo rigor da execução técnica, pela exploração das capacidades expressivas das personagens ou cenas, conseguida pela acentuação dos gestos e das expressões faciais e corporais, pela preferência de representações em movimento, pela utilização de panejamentos volumosos, agitados e decompostos, e pelo sentido cénico das obras.
      Tal como a arquitetura e a escultura, também a pintura teve como objetivo o deslumbramento, a surpresa, a encenação e a luz, integrando um “espetáculo” que se queria total. A pintura barroca jogou com as formas fluidas e ondulantes, aplicou um animado cromatismo e acentuou os contrastes de luz e sombra, aumentando a sensação de realismo. Acentuou, ainda, a sensação de profundidade, sobretudo com a técnica “trompe l’oeil”, aplicada em paredes e tetos, o que constitui uma das mais originais contribuições do Barroco.
      A literatura barroca dedicou um profundo cuidado à forma e ao virtuosismo linguístico no intuito de maravilhar e convencer o leitor, com o uso constante de figuras de linguagem e outros artifícios retóricos, como a metáfora, a elipse, a antítese, o paradoxo e a hipérbole, com grande atenção ao detalhe e à ornamentação como partes essenciais do discurso e como formas de demonstrar erudição e bom gosto.
      Expressão, por excelência, dos sentidos e das emoções intensas, foi na música, no teatro e na ópera que a cultura barroca alcançou todo o seu esplendor. O gosto pelo espetáculo, pela cenografia, pela sumptuosidade dos figurantes, pela associação da música com a dança, com o canto e com a representação dramática deram origem a um género musical tipicamente novo – a ópera.
      Concluindo, o Barroco foi, por excelência, uma arte de imagens, uma arte de cenografia, no qual todas as expressões artísticas concorrem para um único objetivo: produzir espetáculo.
Miguel Moreira, Abril de 2013
Nota - Agradecida, Miguel Moreira, por aceitares o meu desafio. O círculo está agora fechado.
Anabela Magalhães